A importância da intimidade com a natureza local.

“Para um mundo em que faltam muitas coisas, provavelmente as próximas fronteiras a serem exploradas serão as dos lugares em que moramos e trabalhamos.”

David Orr

O município onde nasci e cresci, tem o maior índice de desigualdade do país. Isso porque a cidade têm um fortíssimo apelo ao turismo glamourizado, favorecido por um clima frio, que enriquece alguns e oferece para muitos, a instabilidade de empregos sazonais. Resumindo, esse turismo cresceu e com ele a população do município, porém incorporando a arquitetura, gastronomia e cultura de países da Europa, principalmente. Com o passar dos anos, o município se tornou um dos principais destinos turísticos do Brasil e o incentivo ao uso de elementos de outras culturas se ampliou. Portanto, a identidade local se perdeu e junto com ela, a identidade dos cidadãos. Muitos desejam se vestir como turistas, badalar as festas oferecidas apenas na alta temporada e, atender seus conterrâneos, em lojas por exemplo, com desmerecimento. Outros, ainda, se sentem inferiores e nunca visitaram lugares atraentes em sua própria cidade, talvez apenas para trabalhar.

O primeiro grupo não tem intimidade com os recursos naturais do município, pois não é estimulado a se sensibilizar para as belezas e importâncias da natureza e seus recursos, se relacionando mais com a cultura da aparência e consumo. O segundo grupo apresenta mais carências, trabalhando muito para ganhar pouco, habitando bairros com infraestrutura precária e limitada, sem recursos pessoais para se sentir parte ativa na formação de uma cidade.

Quando escolhi o curso em que me graduei, claramente, abri uma porta que me levou à enxergar esse cenário social local e relacionar como esse cenário interfere no meio ambiente do município e na preservação de sua natureza. A maior parte das pessoas que vivem nesse município, não conhecem profundamente o lugar em que estão e o preço disso é o desapego e a destruição causada por aqueles que jogam entulhos em áreas inapropriadas, cortam árvores nativas, causam incêndios, despejam seu esgoto irregularmente, entre muitas outras práticas que convivemos por aqui.

E em que tudo isso se relaciona com o assunto que estamos tratando? Esse espaço habitado por ambos os grupos, não é influenciado por nenhum deles e, muito menos, pensado para nenhum deles, apesar de depender diretamente de ambos. Isso porque, por aqui, predominam cidadãos que fincam poucas raízes, investem pouca energia, conhecem pouco e talvez, como diz Orr, ‘só se importem com o lugar na medida da sua capacidade de lhe oferecer gratificação imediata’.

Para que o residente se torne um habitante, desses capaz de carregar as marcas do lugar em que vive é importante que tenha a oportunidade de viver numa relação íntima e orgânica, conhecendo profundamente o lugar, desenvolvendo um senso de cuidado e preservação sobre as dinâmicas naturais do ecossistema local.

Valorizar e aprender com a história do município, conhecer as características da natureza da região, preparar as crianças a olhar para seu entorno e reconhecer-se como parte de um sistema natural, entender sobre as espécies vegetais e toda fauna associada, impregnadas do lugar para que, quando jovens e adultas, sejam capazes de interferir na força que transforma áreas naturais em loteamentos para condomínios de alto padrão e que reconheçam o lugar em que estão e de onde vieram, como parte de sua personalidade, como um tesouro maior e mais valioso do que qualquer status social.

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